O mito da Califórnia socialista
Atualizado: 21 de ago.
A direita dentro e fora dos EUA sempre apresenta a Califórnia como uma prévia do que aconteceria se os socialistas tomassem o poder. Não é por menos: a crise habitacional nas ruas de Los Angeles, cenas abertas de consumo de drogas em San Francisco,condomínios de trailers devido aos aluguéis absurdamente caros e impostos elevados são frequentemente associados a uma política de legalização da maconha e a restrições ao porte de armas. A conclusão aparece pronta: a Califórnia seria a demonstração prática do fracasso da esquerda.

Em agosto de 2026, o Instituto Mises Brasil publicou um artigo com um título que praticamente resume essa interpretação: “Como o socialismo democrático criou a crise habitacional da Califórnia”. Na versão americana, o autor chega a afirmar que, se aquilo que acontece na Califórnia não puder ser chamado de “socialismo democrático”, ele gostaria de saber o que poderia. Eu explico como podemos chamar: capitalismo.
A Califórnia é um dos centros mundiais do capitalismo contemporâneo. É a terra do Vale do Silício, das gigantes de tecnologia, de algumas das maiores fortunas privadas do planeta e de um mercado imobiliário em que possuir terra e propriedades pode significar acumular milhões de dólares enquanto trabalhadores são expulsos das regiões onde trabalham. Em 2019, mais bilionários viviam ali do que em qualquer outro estado americano, enquanto o custo da habitação fazia uma parcela enorme da população cair abaixo da linha de pobreza.
Quando proteger a propriedade privada vira “socialismo”
O texto do Instituto Mises sobre a crise de moradia californiana é particularmente interessante porque sua própria reconstrução histórica produz uma contradição. Uma das leis apresentadas como fundamentais para explicar as restrições à construção de moradias na Califórnia é a California Environmental Quality Act, a CEQA, de 1970. Ela foi assinada por Ronald Reagan: republicano, conservador, futuro presidente dos Estados Unidos e uma das maiores referências políticas da direita americana no século XX.
Mais interessante ainda é observar quem frequentemente utiliza regulamentações urbanísticas para impedir novas construções.
O próprio artigo descreve associações de moradores, proprietários de imóveis e moradores de bairros valorizados utilizando audiências, regras ambientais, limites de altura e processos judiciais para impedir novos empreendimentos próximos de suas propriedades. Mas por que exatamente isso seria socialismo?
Quando o proprietário de uma casa de US$ 1,5 milhão utiliza o Estado para impedir a construção de apartamentos ao lado de sua propriedade porque teme perder luz solar, vista ou valorização imobiliária, não estamos vendo trabalhadores tomando os meios de produção. Estamos vendo o Estado sendo utilizado por proprietários para defender seus próprios interesses patrimoniais.
A existência de regulamentação estatal não transforma automaticamente uma sociedade em socialista. O Estado pode regular o mercado e, ao mesmo tempo, continuar protegendo a propriedade privada e a acumulação de capital.
O problema das drogas não começou com uma revolução socialista
Outro símbolo recorrente da narrativa sobre o “fracasso progressista” da Califórnia são as imagens de pessoas usando drogas nas ruas de San Francisco e Los Angeles. Os EUA atravessam uma grave crise de overdoses relacionada ao fentanil, com centenas de milhares de mortes acumuladas nos últimos anos. O salto lógico acontece quando a existência desses problemas é utilizada como demonstração automática de que políticas progressistas ou uma suposta experiência socialista produziram aquela situação.
Uma das maiores pesquisas já realizadas com pessoas em situação de rua na Califórnia, conduzida pela Universidade da Califórnia em San Francisco, encontrou uma realidade muito mais complexa. Cerca de 35% das pessoas pesquisadas relataram uso regular de drogas ilícitas. Isso significa também que a maioria não relatou esse padrão de uso. E, entre aqueles que usavam drogas regularmente, 42% afirmaram que começaram o consumo regular depois de experimentar a situação de rua pela primeira vez.
Antes de perder a moradia, os entrevistados tinham renda domiciliar mediana de apenas US$ 960 mensais. A maioria acreditava que algum tipo de auxílio financeiro ou subsídio habitacional poderia ter impedido que chegasse à situação de rua. Além disso, 90% haviam perdido sua última moradia dentro da própria Califórnia, contrariando a ideia de que as cidades californianas simplesmente estariam atraindo pessoas sem-teto do restante do país.
A concentração de renda e a escassez de moradias também são fundamentais. Em regiões com enorme concentração de empregos e riqueza, há poucas opções de habitação acessível. Em San Francisco, o aluguel médio chegou a quase US$ 3 mil, enquanto uma parcela significativa dos trabalhadores recebia menos de US$ 15 por hora.
E a Califórnia está longe de representar uma experiência de permissividade irrestrita. Em 2024, seus próprios eleitores aprovaram a Proposition 36, que voltou a permitir acusações criminais mais severas contra reincidentes em crimes relacionados a drogas e aumentou penas para uma série de delitos.
Isso revela um problema mais amplo: falta de políticas suficientes de saúde e assistência social, desemprego, perda de moradia, bolhas imobiliárias e desigualdade não são evidências de socialismo. Portanto, encontrar pessoas sem moradia ou uma crise habitacional na Califórnia e apresentar sua existência como prova do “fracasso socialista” já parte de uma premissa falsa: antes de explicar por que uma crise aconteceu, é preciso primeiro demonstrar que havia socialismo para fracassar.
Maconha como negócio bilionário
Talvez nenhum exemplo revele melhor a diferença entre progressismo liberal e políticas que, de fato, sejam de esquerda do que a legalização da cannabis.
A Califórnia legalizou o uso recreativo de maconha em 2016, mas a substância não foi retirada das relações mercantis. O cultivo, processamento, distribuição e venda permaneceram essencialmente nas mãos de empresas privadas. A legalização transformou uma atividade ilegal em uma indústria regulamentada e potencialmente altamente lucrativa.
Pesquisadores do Cannabis Research Center de Berkeley encontraram que produtores maiores tinham muito mais condições de participar do sistema de licenciamento, enquanto pequenos agricultores enfrentavam custos regulatórios elevados, burocracia e dificuldades de acesso a capital. O resultado era justamente aquilo que deveria ser evitado: concentração industrial dentro do novo mercado legal.
A própria história nacional ajuda a desmontar a associação automática entre cannabis e esquerda. Em 2018, o governo federal legalizou o cânhamo industrial por meio do Farm Bill, tendo como um dos principais protagonistas Mitch McConnell, então líder republicano no Senado e uma das figuras mais importantes do conservadorismo americano.
O argumento de McConnell era econômico. Kentucky, seu estado, possuía longa tradição agrícola e havia sido historicamente um grande produtor de tabaco. Com a queda do consumo de cigarros e a perda de receita dos produtores rurais, o cânhamo aparecia como uma possível nova cash crop, capaz de gerar renda, empregos e mercados.
A distinção era politicamente conveniente. O cânhamo pertence ao gênero Cannabis, mas possui concentração muito baixa de THC e não produz os mesmos efeitos psicoativos associados à maconha. Assim, McConnell podia continuar contrário à legalização recreativa enquanto defendia a abertura de um novo mercado associado à cannabis.
O mercado também atraiu grandes empresas. A Altria, dona da fabricante dos cigarros Marlboro, desembolsou cerca de US$ 1,8 bilhão para adquirir uma participação de 45% na canadense Cronos Group, empresa do setor de cannabis.
A sequência histórica é reveladora: durante a proibição, o Estado criminalizou; com a legalização, o capital encontrou um novo mercado; depois, políticas públicas precisaram ser criadas para tentar garantir que comunidades anteriormente criminalizadas também conseguissem participar economicamente da nova indústria.
Portanto, a pergunta relevante não é simplesmente se uma substância foi legalizada. É como ela foi legalizada, quem passou a controlar sua produção e quem ficou com os lucros.
A Califórnia restringiu armas por causa dos Panteras Negras
As restrições ao porte de armas na Califórnia aparecem frequentemente como prova de sua cultura liberal e progressista. Mas uma das leis decisivas dessa história nasceu justamente do medo de uma organização revolucionária negra.
Em 1966, Huey Newton e Bobby Seale fundaram em Oakland o Partido dos Panteras Negras. Uma das estratégias do movimento era patrulhar abordagens policiais portando armas legalmente, câmeras e livros jurídicos. A lógica era simples: se a Segunda Emenda garantia aos americanos o direito às armas, negros também deveriam poder utilizá-las para se proteger da violência policial.
A reação foi rápida. Em 1967, a Califórnia aprovou a Mulford Act, restringindo o porte público de armas carregadas. A lei foi assinada novamente por Ronald Reagan.
Sua aprovação foi uma resposta direta às patrulhas armadas dos Panteras. E existe outro detalhe desconfortável para a política americana atual: a National Rifle Association, a NRA, apoiou a restrição.
Ou seja, uma das raízes do rígido controle de armas californiano não está simplesmente numa esquerda progressista querendo desarmar conservadores. Ela também está na política de um governador republicano, apoiado naquele momento pela principal organização armamentista americana, reagindo ao fato de negros revolucionários terem começado a portar armas como os brancos já faziam e ainda fazem no resto do país.
Quando as armas estavam nas mãos dos Panteras, parte da direita americana descobriu rapidamente as virtudes do controle de armas.
Até os sem-teto estão sendo expulsos das ruas
Só que o governo democrata de Gavin Newsom vem aumentando justamente a pressão para removê-los. Em 2024, Newsom assinou uma ordem executiva determinando que órgãos estaduais adotassem políticas para retirar acampamentos de propriedades estaduais. Em 2025, apresentou um modelo de legislação para que cidades e condados limitassem acampamentos e proibissem permanências prolongadas em determinados espaços públicos.
O próprio governo afirma ter removido mais de 16 mil acampamentos de áreas sob responsabilidade estadual entre julho de 2021 e maio de 2025. Meses depois, Newsom criou uma força-tarefa estadual para acelerar a remoção de acampamentos nas dez maiores cidades da Califórnia.
É perfeitamente possível discutir se essas medidas são justificáveis, se existe oferta suficiente de abrigo, se removem pessoas sem resolver o problema ou se determinadas áreas precisam realmente ser desocupadas por questões sanitárias e de segurança.
O que fica difícil é apresentar esse processo simplesmente como uma política de “esquerda permissiva que deixa todo mundo fazer o que quiser”.
Progressismo não é socialismo
Essa distinção é importante porque políticas de reconhecimento podem perfeitamente coexistir com uma economia profundamente capitalista. Como aponta Nuria Alabao ao discutir o chamado “neoliberalismo progressista”, é possível ampliar direitos de mulheres, pessoas LGBT ou grupos racializados e, simultaneamente, preservar uma economia organizada em torno do mercado, da propriedade privada e da acumulação de capital.
É justamente essa confusão que permite apresentar a Califórnia como “socialista”. O estado pode reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo, proteger imigrantes ou regulamentar emissões de carbono sem que Apple, Google, Meta, Disney, bancos, fazendas e grandes fundos imobiliários deixem de pertencer a proprietários privados.
Na Califórnia continuam existindo alguns dos imóveis mais caros dos Estados Unidos, algumas das empresas privadas mais poderosas do planeta e algumas das maiores fortunas particulares do mundo. Quando um trabalhador não consegue pagar o aluguel em San Francisco, ele entra em um mercado imobiliário privado, procura um proprietário e descobre que talvez seu salário simplesmente não seja suficiente para pagar o preço exigido.
É assim que uma das regiões mais ricas do planeta pode concentrar bilionários enquanto milhares de pessoas dormem nas ruas.
Da mesma maneira, votar majoritariamente no Partido Democrata não transforma o Vale do Silício numa experiência socialista. Tampouco transforma seus bilionários em “proletários revolucionários”.
Isso também evita outro erro: imaginar que criticar a identificação entre progressismo e socialismo significa negar a importância das lutas feministas, antirracistas ou LGBT. Direitos conquistados por esses movimentos são resultado de lutas sociais reais. O fato de empresas e governos conseguirem incorporá-los sem romper com o capitalismo não torna essas lutas irrelevantes.
Quando movimentos efetivamente anticapitalistas apareceram na Califórnia, organizando trabalhadores, defendendo controle comunitário, enfrentando proprietários e questionando diretamente o capitalismo, o Estado não os recebeu como parceiros naturais de seu suposto projeto socialista. Eles também foram reprimidos.
Talvez o problema da expressão “Califórnia socialista” seja, portanto, muito simples: ela chama de socialismo uma forma progressista de administrar uma sociedade que continua sendo capitalista e apaga justamente aqueles que tentaram colocar o próprio capitalismo em questão.



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