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A farsa do “nazismo de esquerda”: o que Hitler realmente pensava sobre o socialismo

19 de ago.
10 min de leitura

Atualizado: 21 de ago.

Existe um argumento sobre o nazismo que parece ter sido feito sob medida para a internet: o partido de Adolf Hitler se chamava Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Logo, Hitler era socialista. Logo, o nazismo era de esquerda. O problema é que, para essa tese funcionar, é preciso ignorar praticamente tudo o que os nazistas diziam, quem perseguiam, quem os apoiava, o que fizeram quando chegaram ao poder e, finalmente, contra quem decidiram travar a maior guerra de sua história.


Até o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos define o Partido Nazista como um movimento radical de extrema direita, racista, ultranacionalista, antidemocrático, antissemita e antimarxista. E registra um detalhe particularmente importante: desde sua origem, o partido buscava justamente retirar trabalhadores da influência do socialismo e do comunismo e incorporá-los ao nacionalismo nazista.


Mas ninguém precisa aceitar essa classificação simplesmente porque um museu ou historiadores dizem isso. Podemos começar pelo próprio Hitler.



Hitler sabia que sua propaganda parecia de esquerda.

Era justamente essa a intenção.


Em Minha Luta, publicado em 1925, Hitler dedica parte do livro à disputa dos nazistas com aquilo que chamava de “vermelhos”. E é justamente ali que aparece uma das passagens mais interessantes para entender por que símbolos e palavras associados ao movimento operário foram incorporados à propaganda nazista.


Hitler conta que setores da burguesia nacionalista alemã ficavam desconfiados ao ver cartazes nazistas vermelhos, militantes se chamando de “camaradas” e um partido que carregava simultaneamente as palavras “trabalhadores” e “socialista” no nome. Alguns chegavam a imaginar que os nazistas fossem marxistas disfarçados.Hitler achava aquilo engraçado.


Segundo ele, a escolha da cor vermelha havia sido deliberada: servia para provocar a esquerda e, principalmente, atrair trabalhadores e militantes de esquerda às reuniões nazistas, onde poderiam ser expostos à propaganda do partido.

Em suas próprias palavras, o vermelho havia sido escolhido para “excitar a esquerda” e induzi-la a frequentar as assembleias nazistas.


Ou seja: o Partido Nazista não usava elementos da estética operária porque tivesse se convertido ao marxismo. Usava justamente porque precisava disputar com o marxismo uma classe trabalhadora alemã fortemente organizada em partidos socialistas, comunistas e sindicatos.


Esse contexto é fundamental. O socialismo tinha enorme influência entre os trabalhadores europeus no começo do século XX. Como explica o historiador Ishay Landa, os nazistas enfrentavam exatamente o problema de conquistar redutos socialistas e comunistas e, por isso, buscavam uma linguagem capaz de dialogar com aquele público, apropriando-se da popularidade da palavra “socialismo” enquanto esvaziavam seu conteúdo marxista.


Marxismo como “ideologia judaica”


No livro “Minha Luta”, Hitler apresenta repetidamente o marxismo como uma ameaça que deveria ser eliminada. Para ele, anticomunismo e antissemitismo estavam inclusive conectados pela teoria conspiratória nazista do chamado “judeu-bolchevismo”.


Décadas antes de a Alemanha invadir a União Soviética, Hitler já falava em “exterminar” o marxismo como em seu discurso feito  no dia 10 de fevereiro de 1933 no Palacio de los Deportes de Berlín, quando declarou que seus maiores inimigos eram os comunistas.



A questão, portanto, não é simplesmente que Hitler discordava dos comunistas. O nazismo se construiu politicamente contra eles.


Quando Hitler chegou ao poder, uma das primeiras coisas que fez foi prender comunistas


A diferença entre propaganda e projeto político aparece com uma clareza brutal depois de 30 de janeiro de 1933, quando Hitler se tornou chanceler.

Poucas semanas depois, em 27 de fevereiro, o Reichstag, o parlamento alemão, pegou fogo. Os nazistas utilizaram o episódio para apresentar a Alemanha como vítima de uma suposta conspiração comunista e suspender direitos fundamentais.


Começou então uma onda de prisões. Comunistas foram perseguidos, organizações foram destruídas e opositores políticos passaram a ser encarcerados sem as garantias do sistema judicial anterior. Em março de 1933 foi criado Dachau, o primeiro campo de concentração permanente do regime nazista.


Quem eram seus primeiros presos? Comunistas.

O Museu do Holocausto dos Estados Unidos registra que os primeiros cem prisioneiros de Dachau eram comunistas alemães. Nos primeiros anos, o campo recebeu principalmente comunistas, social-democratas, sindicalistas e outros adversários políticos do regime.

Isso aconteceu antes de o sistema de campos assumir as dimensões genocidas que teria posteriormente.


Os campos de concentração nazistas nasceram, em primeiro lugar, também como um instrumento de destruição da oposição política, especialmente da esquerda organizada.

Até julho de 1933, cerca de 27 mil pessoas, praticamente todas prisioneiros políticos, já estavam detidas nos primeiros campos. É uma maneira bastante estranha de realizar uma revolução socialista: prender os socialistas e comunistas.


O fechamento de sindicatos


Em 2 de maio de 1933, unidades nazistas ocuparam sedes sindicais em toda a Alemanha. Os sindicatos independentes foram dissolvidos, seus bens confiscados e suas lideranças perseguidas.


No lugar deles surgiu a Frente Alemã do Trabalho, a Deutsche Arbeitsfront. Não era um sindicato livre controlado pelos trabalhadores. Era uma instituição subordinada ao regime.

Enquanto os sindicatos tradicionais colocavam os direitos dos trabalhadores no centro de sua atuação, a Frente Alemã do Trabalho submetia esses interesses aos objetivos econômicos do Estado nazista. Os comunistas foram esmagados. Os social-democratas também foram proibidos. Em julho de 1933, todos os partidos políticos, com exceção do Partido Nazista, estavam banidos.


Nesse sentido, podemos afirmar que o governo nazista, logo em seus primeiros anos, causou a perseguição e prisão de lideranças comunistas e a destruição física das maiores organizações da esquerda alemã?


O mercado e o nazismo: Privatização e a defesa da propriedade privada


O governo nazista interferia pesadamente na economia. Controlava investimentos, direcionava recursos, incentivava determinados setores, estabelecia prioridades industriais e, principalmente, reorganizou a produção alemã em função do gigantesco programa de rearmamento.


Mas intervenção estatal não é sinônimo de socialismo.

Donald Trump oferece um exemplo contemporâneo. Em 2025, seu governo ameaçou utilizar tarifas e outras formas de retaliação contra países que adotassem impostos e regulações considerados prejudiciais às empresas americanas de tecnologia. Quando o Canadá tentou implementar um imposto sobre serviços digitais que atingiria grandes plataformas, Trump interrompeu negociações comerciais e ameaçou retaliar o país. Poucos dias depois, o governo canadense anunciou que retiraria a cobrança. Na União Europeia, Washington também passou a pressionar contra regras e multas que atingiam empresas como Google, Meta, Apple e Amazon. Até o Brasil foi alvo de uma investigação comercial americana que citava medidas envolvendo plataformas digitais.


Nada disso transforma os Estados Unidos em um país socialista. É justamente o contrário: o Estado utiliza tarifas, diplomacia, legislação e seu peso econômico para defender empresas privadas nacionais.

E o exemplo não termina em Trump. Os Estados Unidos destinaram dezenas de bilhões de dólares à indústria privada de semicondutores por meio do CHIPS Act. A França criou o France 2030, um programa de €54 bilhões para direcionar investimentos a setores considerados estratégicos, como energia nuclear, hidrogênio, automóveis elétricos, semicondutores e indústria aeroespacial. A Alemanha subsidia empresas para acelerar transformações nas indústrias de aço, química e energia.


O Brasil faz exatamente a mesma coisa. Todos os anos, o governo define atividades agrícolas que deseja estimular, oferece linhas especiais para compra de máquinas, irrigação, armazenagem e modernização e subsidia parte dos juros cobrados dos produtores rurais. No Plano Safra 2025/2026, R$ 113,8 bilhões em financiamentos para médios e grandes produtores foram programados com juros equalizados: o produtor paga uma taxa menor e o Tesouro Nacional cobre parte da diferença para as instituições financeiras.


Ninguém conclui, por causa disso, que o agronegócio brasileiro foi socializado.

A existência de planejamento, subsídio ou intervenção do Estado, portanto, não responde à questão fundamental. É preciso perguntar: quem possui as empresas? Quem controla os meios de produção? Como se organiza a relação entre empresários e trabalhadores? E quem se apropria dos resultados da produção?


É justamente aí que a tese de um suposto “socialismo nazista” começa a desmoronar.

Hitler não entregou as fábricas aos trabalhadores. Não socializou os grandes grupos industriais alemães. Não aboliu a propriedade privada. Fez justamente o contrário: destruiu sindicatos independentes e organizações políticas dos trabalhadores enquanto empresas privadas continuaram existindo e seus proprietários continuaram acumulando lucros.

Os historiadores econômicos Christoph Buchheim e Jonas Scherner analisaram essa questão no Journal of Economic History. A conclusão é especialmente importante porque desmonta outro argumento recorrente: o de que a propriedade privada teria existido apenas nominalmente sob Hitler. Segundo os autores, mesmo dentro de uma economia fortemente regulada pelo Estado, empresários privados conservaram autonomia significativa sobre investimentos e produção, e contratos privados continuaram sendo utilizados inclusive nos programas relacionados à guerra.


E há um dado ainda mais inconveniente para a tese do “nazismo socialista”: o governo de Hitler privatizou empresas. O economista Germà Bel mostrou que, durante a década de 1930, o regime nazista transferiu para mãos privadas empresas e participações que anteriormente estavam sob controle estatal. O movimento foi tão significativo que ocorreu na direção contrária à adotada por vários outros países capitalistas após a Grande Depressão, quando muitos governos estavam justamente ampliando sua participação direta na economia. Isso não significa que Hitler fosse um liberal econômico defensor do laissez-faire. Não era.


A economia nazista era capitalista, mas profundamente autoritária, militarizada e dirigida pelo Estado. Empresas privadas eram submetidas às prioridades políticas do regime, especialmente ao rearmamento, à preparação para a guerra e posteriormente à exploração econômica dos territórios conquistados.


Mas capitalismo nunca significou necessariamente ausência de Estado.

O ponto decisivo é que a intervenção nazista não eliminou a propriedade privada nem colocou a produção sob controle dos trabalhadores. Pelo contrário: como destaca o historiador Ishay Landa, os nazistas preservaram a propriedade privada e orientaram sua intervenção econômica de modo compatível com os interesses de setores importantes da grande indústria alemã.


O próprio uso nazista da palavra “socialismo” precisa ser entendido nesse contexto. Para Landa, o termo foi esvaziado de seu significado tradicional e empregado para designar uma política nacionalista e intervencionista que mantinha a propriedade privada; enquanto “marxismo”, no vocabulário nazista, representava justamente aquilo que deveria ser destruído: social-democracia, organização política dos trabalhadores e direitos trabalhistas.

Portanto, encontrar planejamento estatal na Alemanha de Hitler não prova que havia socialismo.

A pergunta correta não é se o Estado intervinha na economia. É em benefício de quem ele intervinha e qual estrutura de propriedade essa intervenção preservava.

O crescimento de empresas privadas.


É aqui que entram histórias empresariais conhecidas até hoje.


A Ford manteve na Alemanha a Ford-Werke. Durante a guerra, sua subsidiária alemã produziu veículos para o esforço militar nazista e utilizou trabalhadores forçados, incluindo prisioneiros de guerra e pessoas provenientes do sistema de campos de concentração. Um relatório do Exército dos Estados Unidos produzido após a guerra chegou a descrever a Ford-Werke como um “arsenal do nazismo”. É importante fazer uma distinção: durante o conflito, a subsidiária alemã ficou submetida ao controle direto do governo nazista, e o Museu do Holocausto afirma que Henry Ford não controlava suas operações naquele período. Ainda assim, a empresa privada continuou existindo e lucrando dentro da economia do Reich.


O caso da indústria química é ainda mais brutal.

A Bayer não existia então como empresa independente da maneira como existe hoje. Desde 1925, ela integrava o gigantesco conglomerado privado IG Farben, ao lado de BASF e outras companhias químicas alemãs.

A IG Farben tornou-se profundamente integrada à economia de guerra nazista.

Em Auschwitz, construiu o complexo industrial de Buna-Monowitz e utilizou em escala gigantesca trabalho escravizado proveniente do sistema de campos de concentração. O Museu do Holocausto inclui a IG Farben entre as empresas privadas alemãs que recorreram cada vez mais ao trabalho forçado durante a guerra.

Há ainda um exemplo muito mais cotidiano. Fanta.


É comum encontrar a afirmação exagerada de que “os nazistas inventaram a Fanta”. Não foi isso que aconteceu. A própria Coca-Cola explica que, em 1940, com a guerra impedindo a importação para a Alemanha do concentrado necessário para fabricar Coca-Cola, a filial alemã precisava encontrar uma forma de continuar operando.

Max Keith, responsável pela operação alemã, mandou desenvolver uma bebida utilizando ingredientes disponíveis localmente, entre eles restos da produção de maçãs e soro de leite. Nascia a Fanta.


Veja como uma empresa privada estrangeira permaneceu operando dentro da economia alemã e criou um novo produto justamente para manter suas atividades durante o período nazista.Prova algo muito mais simples: Hitler não havia abolido a empresa privada.


E então Hitler decidiu destruir o maior Estado comunista do mundo


Talvez o episódio mais difícil de conciliar com a tese do “Hitler de esquerda” tenha começado na madrugada de 22 de junho de 1941.

Mais de três milhões de soldados do Eixo atravessaram a fronteira soviética.

Começava a Operação Barbarossa, a invasão da União Soviética.

Não se tratava simplesmente de uma disputa territorial convencional.


Desde os anos 1920, a destruição da União Soviética era um objetivo político de Hitler. O projeto combinava três elementos: conquistar Lebensraum, o chamado “espaço vital”, para a expansão alemã; colonizar territórios do Leste Europeu; e eliminar aquilo que os nazistas consideravam a ameaça do comunismo soviético.


O Museu do Holocausto descreve Barbarossa como uma verdadeira guerra de aniquilação contra o Estado soviético e contra aquilo que os nazistas chamavam de governo “judaico-bolchevique”.

Não era apenas propaganda.


Em junho de 1941, o regime emitiu a chamada Ordem dos Comissários, determinando que comissários políticos soviéticos capturados fossem executados.

A guerra no Leste assumiu uma dimensão simultaneamente territorial, racial e ideológica.

Para os nazistas, destruir a União Soviética significava destruir o principal Estado comunista do planeta, eliminar o “bolchevismo” e conquistar terras que seriam reorganizadas segundo a hierarquia racial nazista.


O Exército alemão chegou a enxergar aquela campanha como uma espécie de cruzada contra o comunismo.

Um movimento de esquerda que prende comunistas, extermina organizações marxistas, destrói sindicatos e lança uma guerra de aniquilação contra o principal país comunista do mundo seria, no mínimo, uma categoria histórica bastante peculiar.


Então por que “socialista” no nome?


Porque palavras também são armas políticas.

O nazismo surgiu num país em que socialistas e comunistas organizavam milhões de trabalhadores. Para disputar esse público, os nazistas não poderiam simplesmente falar a linguagem tradicional das elites conservadoras.Precisavam construir sua própria ideia de “social”. Mas o sujeito dessa política não era a classe trabalhadora internacional, como no marxismo.Era a nação racial alemã.


O nazismo rejeitava a ideia marxista de que a sociedade era atravessada por um conflito fundamental entre trabalhadores e proprietários. Em seu lugar, defendia uma suposta unidade entre patrões e empregados alemães, todos integrados à chamada “comunidade nacional”. O conflito deixava de ser entre classes sociais e passava a ser projetado contra aqueles que o regime definia como inimigos: marxistas, judeus, estrangeiros e povos considerados racialmente inferiores.


É justamente por isso que não faz sentido retirar a palavra “socialismo” de “nacional-socialismo” e interpretá-la como se tivesse o mesmo significado que no marxismo. Os nazistas deram ao termo outro conteúdo, subordinando qualquer ideia de transformação social à nação, à raça e à autoridade do Estado.


A solidariedade internacional entre trabalhadores foi substituída pelo nacionalismo racial; a luta de classes, pela colaboração entre trabalhadores e empresários alemães. A propriedade privada não foi socializada, mas preservada e submetida às prioridades do regime. Os sindicatos independentes foram destruídos e substituídos por uma organização trabalhista controlada pelo Estado. Socialistas e comunistas, por sua vez, não foram incorporados ao novo regime: foram perseguidos, presos, obrigados à clandestinidade e enviados aos campos de concentração.


E o contraste aparecia também na política externa. Enquanto o marxismo defendia o internacionalismo dos trabalhadores, o nazismo construiu um projeto de expansão territorial, dominação racial e conquista imperial, que culminaria numa guerra de aniquilação contra a União Soviética e contra aquilo que Hitler chamava de bolchevismo.


É por isso que historiadores não classificam uma ideologia simplesmente pelo nome que um partido escolheu para si. Eles observam o que esse movimento defendia, quais alianças construiu, que instituições destruiu, que forma de propriedade preservou, quem perseguiu quando chegou ao poder e contra quem decidiu fazer a guerra.


Quando fazemos isso com o nazismo, a discussão fica consideravelmente menos misteriosa. O partido que Hitler comandava nasceu da extrema direita nacionalista alemã. Cresceu prometendo destruir o marxismo. Chegou ao governo perseguindo comunistas e socialistas. Destruiu os sindicatos. Preservou a propriedade privada. Trabalhou ao lado de grandes empresas. Construiu uma sociedade baseada não na igualdade, mas numa hierarquia racial. E finalmente enviou milhões de soldados para uma guerra cujo objetivo declarado incluía destruir o maior Estado comunista existente.

 

 

 
 
 

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